Do brilho ao desânimo: entendendo a motivação em crianças superdotadas
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"Meu filho adorava aprender. Fazia perguntas o tempo todo, queria descobrir como tudo funcionava. Hoje parece não se interessar por nada da escola."
Esse é um relato que escuto com frequência de famílias de crianças com altas
habilidades/superdotação. Muitos pais guardam na memória o entusiasmo do primeiro dia de aula: a curiosidade intensa, a alegria em aprender e o brilho nos olhos diante de cada nova descoberta. Com o passar dos anos, porém, esse entusiasmo pode dar lugar ao desinteresse, à queda no rendimento escolar e até mesmo à recusa em realizar atividades
propostas pela escola.
É nesse momento que surge a dúvida: o que aconteceu com aquela criança tão motivada? pertencimento.
Na maioria das vezes, a resposta não está na falta de capacidade, mas na relação entre a criança e o ambiente em que ela está inserida.
Quando aprender deixa de ser um desafio
Muitas crianças superdotadas chegam à escola já dominando conteúdos que serão ensinados durante semanas ou até meses. Em vez de descobertas, encontram repetição. Em vez de desafios, recebem atividades que conseguem concluir rapidamente.
Com o tempo, é comum ouvirem frases como:
"Espere os colegas terminarem."
"Depois você vai aprender isso."
"Agora não é hora."
Embora pareçam orientações simples, essas mensagens podem ensinar à criança que sua curiosidade é um problema e que demonstrar interesse por aprender além do esperado não é bem-vindo.
Quando isso acontece diariamente, aprender deixa de ser prazeroso e passa a ser uma atividade sem significado. Aos poucos, o brilho dá lugar ao desânimo.
O perigo do sucesso sem esforço
Existe outro aspecto pouco discutido: muitas crianças superdotadas conseguem excelentes resultados com pouco ou nenhum esforço durante os primeiros anos escolares.
À primeira vista, isso parece uma vantagem. No entanto, quando tudo é fácil, elas deixam de desenvolver habilidades fundamentais, como:
- persistência diante das dificuldades;
- tolerância ao erro;
- organização para estudar;
- estratégias para resolver problemas complexos
Quando finalmente encontram um conteúdo realmente desafiador, podem sentir uma enorme frustração. Afinal, nunca precisaram aprender que errar, insistir e tentar novamente também fazem parte do processo de aprendizagem.
O desejo de pertencer
A motivação também está profundamente ligada às relações sociais.
À medida que crescem, muitas crianças percebem que se destacar intelectualmente pode afastá-las dos colegas. Para evitar rótulos como “CDF”, “gênio”, “nerd” ou “sabe-tudo”, algumas passam a esconder suas habilidades.
Elas deixam de responder às perguntas em sala de aula, evitam demonstrar seus conhecimentos, simplificam o vocabulário e, em alguns casos, reduzem propositalmente seu desempenho escolar para se sentirem parte do grupo.
Esse comportamento não significa falta de inteligência. Muitas vezes, representa apenas uma tentativa de atender a uma necessidade humana fundamental: o desejo de pertencer.
Por isso, é tão importante que crianças superdotadas tenham oportunidades de conviver com seus pares, ou seja, outras crianças que compartilham características semelhantes de pensamento, interesses, curiosidade e intensidade emocional.
A convivência com outras crianças superdotadas permite que elas percebam que não são “diferentes demais” ou “estranhas” por fazerem perguntas complexas, demonstrarem interesses específicos ou aprenderem em um ritmo diferente.
O encontro com seus pares não substitui a convivência com diferentes grupos, que também é fundamental para o desenvolvimento social. No entanto, ter momentos em que possam ser plenamente compreendidas contribui para a autoestima, o sentimento de pertencimento e a aceitação de suas próprias características.
Nem sempre o problema é apenas a escola
Embora a ausência de desafios seja uma das causas mais frequentes da
desmotivação, ela não explica todos os casos.
Diversos fatores podem interferir significativamente no desempenho da criança, entre eles:
- sono insuficiente;
- alimentação inadequada;
- ansiedade ou estresse;
- conflitos familiares;
- desenvolvimento assíncrono;
- dupla excepcionalidade, quando a superdotação está associada a condições como TDAH, dislexia ou outros transtornos do neurodesenvolvimento.
Nessas situações, o talento pode mascarar dificuldades reais, fazendo com que a criança seja vista apenas como “desinteressada”, quando, na verdade, enfrenta obstáculos importantes para aprender.
Como recuperar a motivação?
A boa notícia é que a motivação pode ser reconstruída.
O primeiro passo é compreender que ela não é uma característica fixa. Uma criança pode demonstrar enorme dedicação para aprender astronomia, programação ou paleontologia e, ao mesmo tempo, apresentar pouca disposição para realizar exercícios repetitivos de gramática.
Isso não significa preguiça. Significa que a motivação depende do significado que aquela atividade tem para ela.
Algumas estratégias fazem grande diferença:
- oferecer desafios compatíveis com seu nível de desenvolvimento, por meio da diferenciação curricular, do enriquecimento e, quando indicado, da aceleração;
- permitir escolhas e respeitar seus interesses;
- estabelecer metas possíveis e significativas;
- construir uma parceria entre família, escola e profissionais especializados;
- cuidar das necessidades físicas e emocionais da criança, garantindo um
ambiente seguro para aprender. - Permitir a conexão com pares intelectuais.
O que toda família precisa lembrar
Quando uma criança superdotada apresenta baixo rendimento, desinteresse ou perda de motivação, esse comportamento não deve ser interpretado como falta de potencial.
Na maioria das vezes, ele é um sinal de que alguma necessidade importante não está sendo atendida.
Em vez de perguntar “Por que ela não quer aprender?”, talvez a pergunta mais
importante seja:
"O que está impedindo essa criança de continuar aprendendo com entusiasmo?"
Quando pais, professores e profissionais conseguem responder a essa pergunta, torna-se possível reconstruir o prazer pela aprendizagem e criar condições para que
o potencial deixe de ser apenas uma promessa e se transforme em desenvolvimento, realização e bem-estar.
Afinal, toda criança merece viver o desafio de aprender, crescer e descobrir até onde pode chegar.
Referências
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